segunda-feira, 7 de março de 2011

A Verdade é o Amor - O Amor e o Medo

                 


"Esta é a narrativa da vida de todo mundo. Por detrás da enorme diferença, há apenas uma única história, a de se ir do "não " ao "sim ". Toda a vida é: "Não, obrigado. Não, obrigado". E, em última instância é: "Sim, eu me rendo. Sim, eu aceito. Sim, eu compreendo". Essa é a jornada". 


Uma experiência forte e significativa de se viver é a sensação de abrir-se e superar um medo. O medo faz com que a gente pare, olhe e se demore, às vezes demais, em algo que deve ser continuado. Lembro-me de uma história em que o mestre se dirige ao discípulo e diz: "Bem, é chegada a hora. Agora você vai passar pela prova do medo. Você entrará neste quarto fechado e haverá uma porta para que você saia do outro lado. Aí dentro, você se defrontará com todos os seus medos. Espero você na saída. Vou te dar só um conselho: aconteça o que acontecer, veja você o que vir e sinta o que sentir não pare. Continue andando... continue andando".  

Quando paramos, a situação fica maior. A sombra começa a nos tomar e começamos a pensar toda sorte de bobagens e negatividades e a cabeça começa a fazer uma conversa feia e pesada. Começamos a nos fechar e a nos encolher. O medo faz com que paralisemos e fiquemos agarrados às coisas. Faz com que deixemos passar o timing de sair de uma situação desfavorável, e pode nos fazer perder a dignidade. Não estou propondo a ausência irreal de medo que o expõe ao perigo e risco desnecessários. Estou falando de ter se contaminado demais pelo medo de forma tão sutil que nem mais se percebe a sua presença, mas o seu efeito é, no fim, brutal.   

Lembro-me sempre de uma linda cena de um filme do Harry Potter - O prisioneiro de Askaban - que ilustra esse processo muito bem. Harry Potter estava na floresta à noite para salvar alguém e aqueles seres horrorosos das sombras vieram para cima deles e começaram a acuá-los. Harry foi perdendo sua força e os seres foram dominando-o cada vez mais. Ele caiu no chão e as sombras fantasmas ficaram drenando toda a sua energia... Ele estava fraco demais,  quase morrendo e tudo parecia já perdido quando aparece uma rena iluminada ao longe e nem mesmo se aproxima, mas com sua luz afasta as sombras que, não aguentando, vão embora correndo. Harry pensa que foi o espírito de seu pai que o salvou. 

Essa qualidade de amor que se estende, vai em direção ao outro e diz: "eu vou te proteger", "eu não vou deixar isso acontecer com você!" abre um enorme campo de luz a milhares de quilômetros de distância. Assim é o amor de um ser iluminado. Assim é o amor de um pai por um filho. Assim é a qualidade de vínculo estabelecida entre os seres que sentem o puro e grande amor, que não tem a ver com demonstrações exageradas de amor romântico, mas com estender-se, avançar, e ir em direção ao outro. 

A Verdade é o Amor. No fim passamos por tantas experiências e conhecemos demais a sensação de nos encolhermos por medo, e deixarmos passar uma oportunidade de contato (de nos abrirmos) por medo... Vivemos,  sendo bem honestos, quase o tempo todo nisso... 

Mas ter a experiência de ter dado o passo que se temia, mas se sabia certo, de ter falado quando se fazia necessário, sobretudo ter feito algo por alguém quando era importante que fosse feito, faz-nos sentir uma paz e um orgulho de si para além da arrogância e livre da falsa modéstia. É essa sensação reconfortante e positiva - que vem com saber ter feito o que era certo - que nos garante a satisfação e o preenchimento que nos sustentam, tanto nos momentos difíceis, quanto na hora de partir... 

Poder desafiar o medo e não segui-lo é uma experiência daquelas que justificam a vinda ao planeta Terra.
 

O contrário do Amor não é o ódio. O contrário do Amor é o medo. O medo faz você se fechar e o Amor faz você seguir a despeito de. A despeito de não ser a situação adequada, a despeito de criar talvez mais problemas... No fim das contas, o que vale é ter vivido e ter sido fiel ao bom em você. Isto justifica a vida por se viver e dá paz de espírito na hora da morte. Olhando para trás você terá preferido dar o passo.  

Se o relacionamento acabou... No fim, você viveu. Se foi traído, que bom que não foi você! 

Se você se deixou ficar numa situação qualquer por medo,  se cedeu ao que não devia, ao que não sentia como certo, ou se usou de meios pouco claros para obter o que desejava, reveja, avalie, analise e busque onde estava o medo raiz...  O que de fato fez com que você fizesse o que fez? Quais foram as implicações disso para você e para os outros?  O medo não é justificativa. O sabor da experiência de sair disso e crescer paga o preço! O resultado é o próprio gesto. Não há ganho. Não há perda. 

E, por fim, um detalhe importante: seguindo-se no filme de Harry Potter, descobrimos que a rena era ele mesmo (num desdobramento no tempo) invocando a força e a Luz do Grande Amor e Proteção que combate o medo através da lembrança viva e presente da verdadeira felicidade. No fundo, o que pensávamos vir dos outros (para o bem e para o mal), vem de nós mesmos... E ainda, o que pensávamos estar fazendo aos outros, estamos fazendo é a nós mesmos.


A Civilzação Empática (The Empathic Civilisation )




Animação baseada nos ensinamentos de Jeremy Rifkin



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Tu podes escolher o final da tua história - Felicidade







"Um bom actor é bom porque leu, releu, repetiu a leitura e repetiu a repetição da leitura do argumento até se tornar ele mesmo o argumento."


Bob Proctor

Imagina que a tua vida é um filme. Não que "dava" um filme, mas que "é" um filme. Tu és o actor principal mas não escreveste o argumento. Tu não és escritor, és actor. Contudo, como és a vedeta, é-te dada a possibilidade de escolher um argumento, entre milhares. Melhor ainda, podes passar de um argumento para outro a teu bel prazer, mesmo que a história perca continuidade.
De facto são estas surpresas que fazem de uma história aborrecida, uma história interessante.

O facto é que, mudando ou não de argumento, redefinindo ou não uma nova trajectória na tua vida, não foste tu que o escreveste. As tuas opções não incluem a escrita, somente a escolha.

Por isso é que a tua vida nunca será exactamente, a 100% como tu a poderias sonhar. Ela foi escrita para a humanidade inteira e não somente para ti. O que tens de fazer é interpretá-la com o teu talento. Dar-lhe vida no écran, emprestar-lhe um corpo e uma alma.

Isto significa também que não nasceste ensinado a viver. Nasceste, mas não nasceste um actor experiente. É por isso que precisas de ir aprendendo a viver e fazes isso em tentativas e erros, estudo, prática e modelação (seguindo modelos).

Precisas decidir o rumo da história e como irás interpretar o teu papel. Como fazes isso? Escolhendo o teu argumento, repetindo, repetindo repetindo até ele se tornar uno contigo.

Isso é o que tu fazes, mesmo inconscientemente: repetir um argumento. O único problema é que para a maior parte das pessoas, e talvez para ti também, esse argumento não foi escolhido, foi o primeiro que apareceu. Tu pensas que é uma fatalidade, que não há nada a fazer, mas eu venho dizer-te que não é assim.

Tu podes escolher o final da tua história e o rumo dos acontecimentos. Como te expliquei, não podes controlar o vento: não podes escrever o teu próprio argumento, mas podes posicionar as velas: podes escolher qual argumento seguir.

Escolhe um que inclua: saúde, realização pessoal, amor, conforto e desafios. Depois repete-o até que ele e tu se tornem um só. Isto tem um nome: Felicidade.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Trabalho - Equilíbrio de vida?

                  

                                    


Há milhares e milhares de pessoas lá fora, vivendo vidas de silêncio, gritando desesperados que trabalham horas longas, duras, em empregos que odeiam, que lhes permitem comprar coisas que não precisam para impressionar pessoas que não gostam.


Nigel Marsh uma conferência TED


Isto é interessante, não é?




sábado, 5 de fevereiro de 2011

O dilema do prisioneiro







No início da década de 1980, Robert Axelrod, sociólogo americano, fez uma descoberta notável acerca da natureza da cooperação. A verdadeira importância do resultado de Axelrod ainda não foi devidamente valorizada fora de um grupo restrito de especialistas. Encerra a potencialidade de alterar não apenas as nossas vidas pessoais, como também o mundo da política internacional.

Para compreendermos o que Axelrod descobriu, precisamos primeiro de saber algo sobre o problema que o interessou um bem conhecido quebra-cabeças sobre cooperação chamado Dilema do Prisioneiro. O nome vem da forma como o quebra-cabeças é geralmente apresentado: uma escolha imaginária que se apresenta a um prisioneiro. Há muitas versões. Eis a minha:

O leitor e outro prisioneiro jazem em celas separadas da Esquadra Principal da Polícia da Ruritânia. Os agentes tentam fazer-vos confessar ter conspirado contra o estado. Um interrogador vem até à sua cela, serve um copo de vinho da Ruritânia, dá-lhe um cigarro e, num tom de amizade sedutora, propõe-lhe um acordo.

— Confesse o crime! — exorta ele. — E se o seu amigo na outra cela…

O leitor protesta, alegando nunca ter visto antes o prisioneiro que se encontra na outra cela, mas o interrogador ignora a objecção e prossegue:

— Ainda melhor, então, se ele não é seu amigo; pois, como eu estava a dizer, se o senhor confessar, e ele não, usaremos a sua confissão para o engaiolar a ele dez anos. A sua recompensa será a liberdade. Por outro lado, se for estúpido ao ponto de se recusar a confessar, e o seu "amigo" na outra cela confessar, será o senhor a ir para a prisão dez anos, e ele será libertado.

O leitor pensa nisto durante algum tempo e percebe que não tem informação suficiente para decidir, por isso pergunta:
— E se confessarmos ambos?

— Então, e uma vez que não precisamos realmente da sua confissão, não sairá em liberdade. Mas, tendo em conta que estavam a tentar ajudar-nos, passarão os dois oito anos na cadeia.

— E se nenhum de nós confessar?

Uma expressão de desdém perpassa o rosto do interrogador e o leitor receia que ele esteja prestes a golpeá-lo. Mas o homem controla-se e rosna que, então, uma vez que não terão provas para a condenação, não poderão manter-vos lá dentro muito tempo. Mas acrescenta:

— Não desistimos facilmente. Ainda podemos manter-nos aqui seis meses, a interrogar-vos, antes de os sacanas da Amnistia Internacional conseguirem pressionar o governo para vos tirar daqui. Portanto, pense no assunto: quer o seu colega confesse, quer não, o senhor ficará melhor se confessar do que se não o fizer. E o meu colega vai dizer a mesma coisa ao outro tipo, agora mesmo.

O leitor reflecte no que ele disse e compreende que o guarda tem razão. Faça o que fizer o estranho na outra cela, o leitor ficará melhor se confessar. Se ele confessar, a sua escolha é entre confessar também, e apanhar oito anos de prisão, ou não confessar, e passar dez anos atrás das grades. Por outro lado, se o outro prisioneiro não confessar, a sua escolha é entre confessar, e sair livre, ou não confessar, e passar seis meses na cela. Portanto, parece que o melhor a fazer é confessar. Mas, então, ocorre-lhe outro pensamento. O outro prisioneiro está exactamente na mesma situação. Se, para si, é racional confessar, também será racional para ele confessar. Assim, passarão ambos oito anos na cadeia. Por outro lado, se ninguém confessar, ambos ficarão livres dentro de seis meses. Como pode ser que a escolha que parece racional, para cada um dos dois, individualmente — ou seja, confessar — vos prejudique mais a ambos do que se decidirem não confessar? O que deve fazer?

Não há solução para o Dilema do Prisioneiro. De um ponto de vista puramente do interesse próprio (aquele que não toma em consideração os interesses do outro prisioneiro), é racional, para cada prisioneiro, confessar — e se cada um fizer o que é racional do ponto de vista do interesse próprio, ficarão ambos pior do que ficariam se tivessem escolhido de outro modo. O dilema prova que quando cada um de nós, individualmente, escolhe aquilo que é do seu interesse próprio, pode ficar pior do que ficaria se tivesse sido feita uma escolha que fosse do interesse colectivo.


Peter Singer
Tradução de M. de Fátima St. Aubyn
Retirado de Como Havemos de Viver? A Ética Numa Época de Individualismo (1993) Lisboa: Dinalivro, 2006, pp. 241-244.

dilema do prisioneiro é um problema da teoria dos jogos e um exemplo claro, mas atípico, de um problema de soma não nula. Neste problema, como em outros muitos, supõe-se que cada jogador, de modo independente, quer aumentar ao máximo a sua própria vantagem sem lhe importar o resultado do outro jogador.

As técnicas de análise da teoria de jogos padrão - por exemplo determinar o equilíbrio de Nash - podem levar cada jogador a escolher trair o outro, mas curiosamente ambos os jogadores obteriam um resultado melhor se colaborassem. Infelizmente (para os prisioneiros), cada jogador é incentivado individualmente para defraudar o outro, mesmo após lhe ter prometido colaborar. Este é o ponto-chave do dilema.

No dilema do prisioneiro iterado, a cooperação pode obter-se como um resultado de equilíbrio. Aqui joga-se repetidamente, pelo que, quando se repete o jogo, oferece-se a cada jogador a oportunidade de castigar ao outro jogador pela não cooperação em jogos anteriores. Assim, o incentivo para defraudar pode ser superado pela ameaça do castigo, o que conduz a um resultado melhor, cooperativo.

O dilema do prisioneiro foi originalmente formulado por Merrill Flood e Melvin Dresher enquanto trabalhavam na RAND em 1950. Mais tarde, Albert W. Tucker fez a sua formalização com o tema da pena de prisão e deu ao problema geral esse nome específico. O dilema do prisioneiro (DP) ditoclássico funciona da seguinte forma:

Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?

O fato é que pode haver dois vencedores no jogo, sendo esta última solução a melhor para ambos, quando analisada em conjunto. Entretanto, os jogadores confrontam-se com alguns problemas: Confiam no cúmplice e permanecem negando o crime, mesmo correndo o risco de serem colocados numa situação ainda pior, ou confessam e esperam ser libertados, apesar de que, se ele fizer o mesmo, ambos ficarão numa situação pior do que se permanecessem calados?
Um experimento baseado no simples dilema encontrou que cerca de 40% de participantes cooperaram (i.e., ficaram em silêncio).

Em abstracto, não importa os valores das penas, mas o cálculo das vantagens de uma decisão cujas conseqüências estão atreladas às decisões de outros agentes, onde a confiança e traição fazem parte da estratégia em jogo.
Casos como este são recorrentes na economia, na biologia e na estratégia. O estudo das táticas mais vantajosas num cenário onde esse dilema se repita é um dos temas da teoria dos jogos.




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